Ciro Gomes 2018

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Ciro Gomes 2018 - Todos com Ciro

terça-feira, 20 de maio de 2008

Especismo, fundamentalismo ecológico e experimentação animal

Caríssimos,

O debate sobre o uso de animais na experimentação animal se acirra a cada dia que passa. Por um longo tempo me abstive de formalizar minha opinião. Recentemente, entretanto, a revista Galileu soltou uma matéria de qualidade no mínimo duvidosa a respeito do tema. Fui conferir o debate no ambiente virtual dos comentários online dos internautas leitores da revista e aí não pude me conter. Considerei quase criminoso permanecer calado sobre a situação. De qualquer forma, segue abaixo minha réplica a outro internauta que, como eu, já vinha participando há mais tempo do referido debate. Após esta entrada (Sobre o especismo), reproduzo minhas primeiras colocações e as réplicas de outros internautas, sem qualquer tipo de edição.
Eu não sei se exagero - acho que não nesses tempos de estupidez endêmica - em frisar que este blog contém opiniões de caráter pessoal e não necessariamente representam o posicionamento ideológico das instituições às quais estou ligado.

Abraços!

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Bom, estão parece que a questão se resume ao especismo. Vamos então discutir friamente o especismo, com o rigor da lógica e dos fatos, conforme exige a seriedade do tema. O que é então o especismo? Apesar do meu editor de texto não reconhecer a palavra, de acordo com o Wikipedia se trata de um neologismo que significa a discriminação de seres baseados em suas espécies assim como o racismo discrimina indivíduos com base na cor da pele ou numa alegada “raça” ou o sexismo o faz com base no gênero do indivíduo. Como disse um outro internauta, é nos sentirmos superiores aos animais a ponto de submetê-los a sofrimento para nosso benefício, assim como faziam os escravagistas. Ou, em termos mais científicos e específicos do debate, é a espécie Homo sapiens se sentir superior à espécie Rattus norvegicus ou à Mus musculus.

Comecemos a desenvolver nosso raciocínio considerando o sentido da palavra e, sendo o especismo alegadamente errado (“[] chega de especismo”), devemos ser não especistas e, portanto, necessariamente, considerar indivíduos de outras espécies como nossos semelhantes. Isso é uma verdadeira dicotomia, sendo que a única alternativa restante é nos considerarmos inferiores aos animais, caso em que voltamos a ser especistas, mas no sentido contrário. Portanto, na premissa não especista, se não somos superiores e muito menos inferiores, devemos concluir que indivíduos de outras espécies são nosso semelhantes.

Bom, façamos um trabalho mental e vamos imaginar um mundo não especista. Mas não especista de verdade. Em primeiro lugar, para ser um não especista, é necessário que sejamos todos vegetarianos, pois assassinar semelhantes nossos para nos alimentarmos de sua carne é certamente, numa sociedade não especista, um crime brutal e primitivo. Na perspectiva não especista, comer carne de boi, frango ou peixe é simplesmente canibalismo e, portanto, inaceitável – creio que alguns ativistas mais radicais dirão que, de fato, devemos nos tornar vegetarianos. Entretanto, para levarmos a sério a filosofia não-especista, deveríamos ser vegetarianos radicais, que não consomem sequer derivados de animais, tais como queijo, leite, ovos, etc. E pela simples razão de que não é justo confinar e escravizar nossos semelhantes para que possamos nos alimentar. É tão injusto e cruel como uma hipotética sociedade primitiva manter dezenas de mulheres adultas da tribo rival em cativeiro, com direito apenas à uma ração básica, das quais se toma forçadamente o leite de suas mamas diariamente e, mais ainda, afastando as crianças de seu convívio para que ela não consumam o leite destinado aos indivíduos da tribo dominadora. Portanto, nada de leite, ovos ou coisa que o valha, só vegetais mesmo. Afinal de contas, não há nada que os seres humanos comam de origem animal que seja espontaneamente e de livre vontade doado pelos os animais.

Mesmo no caso de sermos vegetarianos radiais, permanece uma questão importante, que deve ser levantada: qual o domínio taxonômico do especismo? É todo ser vivo? Se for, nem vegetariano pode; a gente tem que dar um jeito rápido de aprender a viver de luz ou inventar umas receitas de sopa de pedra, porque, nesse caso, arrancar um pezinho de alface é igual submeter um irmão à guilhotina. Se o domínio for o reino animal e não o vegetal, então você é um assassino frio e sanguinário quando esmaga a barata que invade a sua dispensa ou um genocida quando usa um Baygon para eliminar uma infestação de formigas na sua casa. Afinal de contas são nossos semelhantes, não são!? Ou seja, nem mesmo o domínio do especismo dado conforme a presença ou não de um sistema nervoso seria aplicável.

Saindo do ilustrativo absurdo, busquemos um domínio mais inteligente, oriundo de evidências da neurociência (a maioria delas coletadas com experimentação animal): nossos semelhantes em uma sociedade não especista são, portanto, apenas os seres vivos do reino animal dotados de sistema nervoso central e, em particular de neocórtex. Isso é bem mais coerente, pois tal estrutura encefálica tem sido sistematicamente correlacionada com funções superiores da psique tais como memória, raciocínio lógico-matemático, emoções e mesmo consciência (apesar de que a existência desta em animais é muitíssimo discutível, mas deixemos essa polêmica para outra hora). Bom isso nos deixa com um número bem mais limitado de seres vivos, deixando de fora uma considerável parcela das espécies usadas na experimentação animal – em tempo: é interessante como as bases mais sólidas da ética do convívio homem - animal provém da própria ciência experimental.

Ainda restariam animais como os roedores, os felinos e os primatas. Isso nos leva a outro exercício mental. Imagine a seguinte situação: devido a uma forte nevasca, você ficou preso em uma cabana nas montanhas. As portas e janelas estão cobertas de neve e você não pode sair, mas você tem o seu telefone celular que ainda funciona. Você liga para o resgate e eles te informam que conseguirão chegar até você em aproximadamente dez dias, pois a situação é gravíssima em todo o país (é o efeito estufa, dizem eles). Eles te pedem paciência e que tente sobreviver com o que há disponível na casa. Você faz uma busca e descobre que há água suficiente e alguns poucos litros de leite e mais nada. Sendo saudável, você acredita que com o repouso e aquecimento devido, você conseguirá sobreviver. Mas aí, surge uma nova circunstância que complica gravemente a situação. Você escuta um choro de criança em um cômodo adjacente e descobre um bebê de menos de um ano de idade, bem aquecido em um berço confortável, mas totalmente desamparado. No chão do cômodo está também uma mulher, já morta, semi-soterrada pela neve que desabou de um canto do teto. Parece ser a mãe que morreu congelada ao ser dominada pela neve. Você rapidamente toma a criança nas mãos, buscando verificar a sua integridade física e descobre que, apesar de estar bem de saúde, ela chora de fome. Corre então para a cozinha para servir ao bebê um pouco do alimento necessário, enquanto calcula que, apesar de significar uma dose quase insuportável de sacrifício extra, você será capaz de salvar aquela vida se abrir mão de boa parte do leite. É possível, afinal a sua condição atlética lhe permite isso e o seu altruísmo lhe dará as forças necessárias para esse objetivo. Mas chegando lá, você descobre mais um sobrevivente na cabana: o gato da família...

Bom, você já viu onde eu quero chegar, não!? Pois é, você, sinceramente, abriria mão da sua cota de alimento para dar ao gato? Ou ainda, você daria cotas iguais de leite para o bebê e para o gato? Pense bem... Se você respondeu “não” a qualquer das minhas perguntas, sinto muito, mas você é um especista e considera a espécie humana superior às outras espécies, mesmo considerando o tipo mais rigoroso de especismo: aquele contra animais providos de sistema nervoso central e neocórtex e, portanto, provavelmente sujeitos à dor e ao sofrimento. Não há como fugir disso, sinto muito. Por outro lado, se você respondeu que sim, que dividiria igualmente o alimento entre o bebê e o gato, você é um caso patológico e deveria ser submetido a tratamento urgente.

Se você ainda insiste que não é um doente mental por ter preferido salvar o gato em detrimento de maximizar as chances de sobrevivência do bebê, você há de concordar comigo que deveríamos alterar boa parte da nossa legislação para equiparar os direitos das espécies, mesmo em questões nada relacionadas à ciência. Primeiro, para te livrar da cadeia pelo crime hediondo de ter negligenciado as necessidades um ser humano totalmente indefeso. Em um segundo momento, uma enorme parte da indústria de alimentos deve ser imediatamente proibida e paralisada, pois são, na verdade, verdadeiras máquinas de tortura e assassinato em massa de nossos semelhantes, a réplica da Auschwitz animal. Isso implicaria, no mínimo na demissão de milhões de trabalhadores e num gravíssimo déficit de produção mundial de alimentos e, portanto, fome. Usar de animais para o trabalho, como no transporte ou na força policial é cruel escravagismo e deve ser imediatamente abolido. E não me venha dizer a bobagem de que nessas condições eles têm alimento e abrigo, já que eles sempre se viraram muito bem por milênios na natureza intacta. Esse argumento é idêntico ao dos coronéis escravocratas que afirmavam estar trazendo os negros para a luz da civilização branca, domesticando seus escravos como se fossem bichos na origem. Ainda nessa perspectiva, animais de estimação e zoológicos se tornariam uma verdadeira aberração, um circo de horrores. Onde já se viu, manter semelhantes nossos presos em cativeiro por conta de uma simples diversão pueril!? As cidades não poderiam mais crescer, nem mesmo para cima, pois qualquer nova habitação na terra no mar ou no ar é uma brutal invasão da propriedade dos nossos semelhantes, pois até no deserto de areia e de gelo há vida (bom, sempre tem a opção de nós irmos morar na lua, certo!?). Seguindo adiante no mar de absurdos que o não especismo nos franqueia, quaisquer endemias, tais como pestes de ratos ou primatas devem ser considerados fenômenos demográficos da vida moderna e nada mais. Eliminar a praga é que não pode, pois isso seria um genocídio.

O homem sempre se beneficiou da vida animal e vai continuar se beneficiando em muitos dos seus setores de atividade. A ciência é apenas mais um deles. Na verdade, a ciência difere drasticamente dos outros setores, pois nela há uma constante e real preocupação com o bem estar dos animais usados, incluindo os mecanismos de fiscalização no manuseio dos animais. Na ciência, o método escolhido é sempre aquele que minimiza o sofrimento dos animais, sendo que custo entra na equação em caráter simplesmente eliminatório (ou seja, se o custo do correto é proibitivo, não se adota o método). Na indústria de alimentos, por outro lado, o método é aquele que gera o maior lucro e ponto final. Mais ainda, a ciência é a mais importante mola propulsora do desenvolvimento humano, mantendo-se aberta sempre a novas idéias, inclusive aquelas que buscam diminuir o uso de animais em suas oficinas de trabalho. Existe, inclusive, a possibilidade de que no futuro a ciência deixe usar animais. A indústria de carnes, por outro lado, nunca deixará de usar animais na sua produção.

O especismo é brutalmente diferente de racismo, termo em que se inspirou o neologismo. É simplesmente estúpido e significa um verdadeiro desrespeito às vítimas do racismo querer comparar uma coisa com a outra. Primeiro porque raça não existe, isso é ciência e está mais do que estabelecido. A distância genética de um sujeito branco para um sujeito negro é menor do que a de um sujeito longilínio para um brevilínio e ambas imensamente menores do que a distância para o nosso parente mais próximo do reino animal. Espécies, por outro lado existem, com enormes diferenças entre si. Segundo, que a idéia do não especismo levada às vias de fato, em toda a sua concepção acarreta uma nova ordem social argumentavelmente insustentável. É uma verdadeira inocência e infâmia dizer que outras espécies animais são nossas semelhantes. Não são e, provavelmente, à exceção de São Francisco de Assis (discutível), ninguém vive o não especismo de verdade. Isso é simplesmente irreal e ilusório. Por fim, não ser não especista não significa uma doutrina de assassinato em massa de animais ou desrespeito pela vida animal. É simplesmente um conceito que justifica o uso da vida animal para benefício do homem, permeado do mais profundo senso moral e ético que são, por sinal, conquista exclusiva, friso, exclusiva da espécie humana. Aliás, só para descontrair um pouco, se a situação da cabana se invertesse, você realmente acredita que o gato iria dividir um pouquinho do seu leite com você?

Por fim, o que se conclui é que o fundamentalismo ecológico nas suas frentes contra a experimentação animal se trata, na verdade, de um ataque hipócrita e despreparado à ciência. Infelizmente é compreensível esse tipo de coisa num país que valoriza a ignorância e presta um culto quase religioso às bundas, peitos, chuteiras e dinheiro fácil. Estudo e dedicação ao conhecimento significam quase um delito moral, principalmente porque em nosso país isso significa abrir mão de maior conforto material. Surpreso? Sinceramente você é tão inocente assim? Faça, então, uma investigação, pesquise no Google: dentre todos os salários de servidores públicos federais com formação superior, os mais mau pagos são os dos professores das IFES (Insituição Federal de Ensino Superior), que se dedicaram intensamente a anos de estudos disciplinados, concorreram herculeamente contra colegas ultra-qualificados nos concursos públicos e hoje sobrevivem cientificamente fazendo milagres com os parcos recursos do financiamento público para pesquisa, soterrados sob pilhas de tarefas burocráticas e entraves logísticos.

Outro internauta soltou aqui o argumento de que cientista busca fama e prestígio. Isso é um estereótipo ridículo e infantil, oriundo no mínimo dos desenhos animados que mostravam aqueles doidos de cabelos desgrenhados em um castelo, criando quimeras e coisas do gênero. Fama? Isso é risível. Basta um exemplo prático para desconstruir essa idiotice: peça a qualquer cidadão não cientista (e muito provavelmente mesmo os cientistas) que, em três minutos nomeie, de cabeça, cinco ganhadores do Oscar e cinco ganhadores do prêmio Nobel (reconhecimento máximo da ciência mundial). Sinceramente, preciso dizer o resultado desse experimento social, mencionando em qual tarefa os cidadãos se sairão melhor? É óbvio que os contemplados com a estatueta dourada de Holywood dariam um chocolate nos cientista do Karolinska. Aliás, quantos sabem onde é feita a premiação do Nobel ou quantos já viram um discurso de recebimento do prêmio?

Portanto, vamos nos inteirar dos fatos antes de sair por aí balançando as floridas bandeiras da moda pseudo-vanguardistas e intelectualóides, sob pena de ficarmos em situação intelectual complicada e constrangedora. Abandonar o sentimentalismo falso e rasteiro, evitar os clichês e as frases de efeito, é imperativo para fazer o dever de casa: elaborar e validar a legislação de uso animal em experimentação científica, banindo para sempre os abusos cometidos por pares desprovidos de escrúpulos e consciência animal.

Legislação sim, fundamentalismo não!

3 comentários:

Simone Semprebon disse...

Olá Vitor!
Essa é uma discussão bastante polêmica. Sou graduanda de biomedicina da Universidade Estadual de Londrina e, portanto, já fiz vivissecção por fazer parte da minha formação. Hoje, não trabalho mais com experimentação animal, mas as opiniões extremistas de algumas pessoas me assustam.
Resolvi escrever esse texto no meu blog depois de uma discussão em uma mesa de bar com mais dois meninos, vegetarianos, e que eram completamente contra o uso de animais em pesquisa (o engraçado é que o pai de um deles é dono de um matadouro).
A discussão durou muito tempo e ouvi muitos absurdos, desde que eles só tomavam remédios não testados em animais (tive que explicar sobre as etapas da experimentação para que um medicamento fosse liberado) até que sacrificar animais em prol do bem-estar da saúde humana é homicídio.
Dei esse exemplo do que aconteceu comigo apenas para ilustrar a ignorância desses "intelectualóides", como vc cita em seu texto, em relação à ciência e à experimentação animal.
É assustador!

É dever de quem se dedica à ciência colocar opiniões sobre temas como esse e, principalmente, divulgá-los.

Gostei muito do seu texto!
Um abraço,

Simone Semprebon

aarbiomusic disse...

É Vinícius, sou solidário ao que vc disse. É realmente assustador como temos a capacidade de enfrentar apaixonadamente algo que parece ser hipócrita (como um suposto "racismo" entre espécies) utilizando-nos de outra hipocrisia aparentemente mais sofisticada (vegetarianismo, veganismo, anti-especismo, etc) e como vc disse pseudo-vanguardista e intelectualóide. Msg ao anti-especista: Não quer fazer algo, não faça. Quem sabe a fotossínteses seja um bom caminho contra o especismo; que tal o "suco de clorofila" ser utilizado como insight prá iniciar o caminho da modificação genética humana rumo ao anti-especismo quimio ou fotossintético quase absoluto. Mas não crie uma filosofia de vida new age que parece ter como representante máximo uma lucidez inconstestável de um modo de vida imperscrutável e superior que na realidade é apenas outra maneira humana de tentar infuenciar perniciosamente os destinos da natureza como se nossa espécie fosse a razão última da existência do Universo.
Abraço, paz e fiquem sem deus
Adriano Ribeiro

Vinícius Rosa Cota disse...

Não sei se todos repararam na inteligência do comentário do Sr. Adriano: "um modo de vida imperscrutável e superior que na realidade é apenas outra maneira humana de tentar infuenciar perniciosamente os destinos da natureza como se nossa espécie fosse a razão última da existência do Universo." Agradeço ao amigo que deixa os frutos do intelecto no meu humilde blog. Pois, no sentido máximo, a colocação do colega nos mostra o quão hipócrita e contraditória em si mesma é a atitude anti-especista. Afinal, se todas as outras espécies são nossos iguais, porque nos colocamos na falsa e superior atitude de preservadores não-predadores? Animais se predam mutuamente. Se somos iguais, por que não podemos ser predadores? Que vantagem moral (há moral no reino animal?) há em ser presa? Gostei muito do fim, quase me enganou: fiquem sem Deus (aliás, uma companhia altamente desagradável...).